Oca do Cacique Beira-Mar -Templo Escola de Umbanda
"A missão não envaidece, responsabiliza" (Cacique Beira-Mar)
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A LINHA DOS MALANDROS NA UMBANDA
 

Quem São Os Malandros?

Os Malandros são espíritos alegres, brincalhões, que gostam do samba, do jogo, que trazem a cultura da noite, da boêmia e que nos ensinam a lidar com a vida com o bom jogo de cintura, com o velho e bom jeitinho brasileiro. São espíritos voltados a ajudar, em especial, pessoas mais carentes, especificamente aqueles que não possuem quase nenhum saber, que vivem nas periferias, nos morros, nas favelas, ou em qualquer outro lugar de vulnerabilidade social.

A linha dos Malandros foi formada pelo Astral Superior de Umbanda para socorrer pessoas que convivem de perto com a violência, com a fome, com perigos diversos, como o tráfico de drogas, por exemplo.  Os que procuram os Malandros, não raras vezes, são cidadãos que estão mergulhados em algum tipo de vício, como o álcool, ou que vivem no crime, a margem da sociedade, tomados quase que completamente por um desajuste social, mas que não têm força para sair desta situação, mesmo querendo.

Os malandros sabem lidar, em especifico, com essas pessoas, abandonadas pelo poder público, pela política, pelo Estado, onde a providência dos governantes nunca chega, onde não há Lei e Ordem, apenas o caos social. Essa linha lida com situações deste tipo e com sujeitos nessas condições, é a sua especialidade.
 
É Necessário a Linha dos Malandros na Umbanda?

Alguém pode questionar que não seria necessário a Linha dos Malandros na Umbanda, visto que existem outras linhas aptas para fazer esse trabalho, tais como os Caboclos e os Pretos-Velhos. Bem, se a Linha dos Malandros foi formado é porque existe necessidade, as nossas entidades sabem mais que nós, presumo. Além do que, a linguagem dos Pretos-Velhos e dos Caboclos, e a forma destas linhas trabalharem, são diferentes, necessitando de uma linha mais especifica, formatada especificamente para atender pessoas nestas condições sociais de abandono e subjugação, independentemente da nossa visão teológica.

Os Malandros são certeiros na maneira de se comunicar, de trabalhar, de orientar e de praticar a caridade a essa população marginalizada, desajustada, presas em condições quase desumanas. A minha experiência de Umbanda me faz presumir que o Trabalho da Linha dos Malandros é decisivo para a restauração de pessoas que se encontram em total estado de vulnerabilidade social, como as descritas acima. Assim, a Linha dos Malandros é totalmente necessária dentro da Umbanda, e ponto final.
 
A Linha de Trabalho Mais Recente da Umbanda

A Linha dos Malandros é a que apareceu mais recentemente dentro da Umbanda, há mais ou menos uns quinze anos, se consolidando, na maioria dos terreiros, na última década.

O Arquétipo dos Malandros

A Linha dos Malandros, conforme já esclarecido acima, traz o arquétipo do morador da periferia, das favelas, do morro, daquele que conhece profundamente essa realidade, e que por conhecer, está apto a ajudar aqueles que passam pelas situações descritas acima, de vicio, de violência, de marginalidade, de desajustes emocionais e sociais. Essa Linha socorre pessoas que estão muito distantes da espiritualidade, da transcendência, da iluminação, do aperfeiçoamento, por questões diversas.

A maioria de nós não consegue entender isso, porque estamos fora dessa realidade, desse universo paralelo onde reinam os vícios, a violência, o desajuste e o abandono social. Isso não é demérito nosso, obvio que não. Todavia não pode ser empecilho para que olhemos para tais pessoas com o mesmo desejo de praticar a Caridade com que nos movemos diante de outras que, felizmente, estão fora desse “mundo paralelo”. A Umbanda não escolhe a quem prestará caridade, presta a quem necessitar, afinal, na fundação da Umbanda, em 1908, o seu fundador, o Caboclo das Sete Encruzilhadas disse que “...a ninguém viraremos as costas”, lembra?
Se estamos fora desta realidade social vulnerável, ótimo, assim temos condições de fazer algo por quem está lá, diariamente, gritando por socorro. O Astral de Umbanda se preocupou com isso, e aí está a Linha dos Malandros, para ajudar estes que necessitam bem mais que nós.

O Que a Linha dos Malandros Não É?
 
Os Malandros não são bandidos, ladrões, criminosos, marginais que incorporam em seus médiuns para fazer baderna, bagunça ou praticar atos incoerentes com o que se entende como uma religião, afinal, a Umbanda é uma religião que pratica a caridade e só faz o bem. Os Malandros representam a boa malandragem, alguém que gosta de brincar, de dançar, de jogar, mas sem enganar, sem mentir, sem roubar, sem trapacear ou fazer qualquer coisa repudiável. O Malandro é o bom Malandro do morro, da periferia, da favela. São aqueles que trazem alegria, descontração e um pouco de leveza a pessoas que vivem em uma realidade social caótica, apenas isso. Os Malandros só praticam o bem, unicamente o bem, afinal, isso é Umbanda, “a manifestação do espirito para a prática da caridade”.
 
Grau Espiritual e Orixá Sustentador da Linhas dos Malandros

Os Malandros são enquadrados como um Linha de Trabalho na Umbanda, todavia, não são um grau espiritual em especifico (se não entender esta parte, leia o texto “arquétipo de umbanda”), pois nenhum espírito se tornará um Malandro, entende? Ou o espírito viveu no contexto da malandragem ou não. Os Malandros manifestam-se sob a regência de todos os Orixás, não havendo apenas um Orixá sustentador.
 
O Ícone dos Malandros. O Malandro dos Malandros, o Sr. Zé Pelintra
 
José Pelintra é homem de história conhecida, que nasceu no Pernambuco, foi para o Rio de Janeiro e depois voltou para Pernambuco.  Zé Pelintra em vida era um mestre de Jurema, de uma família de Juremeiro. A Jurema é como é denominado o culto do Catimbó, outra religião brasileira existente em Pernambuco.

No Rio de Janeiro, a imagem que temos de Zé Pelintra é a de um morador da região da Lapa, que se envolveu com o samba, com as músicas, com as mulheres, com a boemia, sendo ao mesmo tempo um rezador, um benzedor, alguém que possuía uma religiosidade forte, tipicamente pernambucana. Zé Pelintra foi um juremeiro que se tornou boêmio, que aprendeu a cultura da noite, do samba, da boemia, que se envolveu com a comunidade, que viveu uma vida simples, com alegria, e que encontrou no jogo uma boa razão para acreditar na sorte.

Seu Zé Pelintra é um ícone entre os Malandros, é o malandro dos malandros, o mais conhecido e venerado entre os bons Malandros da Umbanda. Existem vários outros Malandros e Malandras além de Zé Pelintra, dentre os quais estão o Zé Pretinho, o Miguel Camisa Preto, a Maria Navalha, o Zé da Faca, dentre outros.

Zé Pelintra incorpora como Malandro, Zé Pelintra incorpora junto com Preto Velho, junto com Baiano. Zé Pelintra incorpora na linha que lhe der abertura, ou seja, é um espírito altamente evoluído que conhece e domina os mistérios da espiritualidade como ninguém, onde permitirem ele vem ajudar, estender a mão, esse é o Zé Pelintra. Tem um ponto cantado que diz que “Zé Pelintra trabalha na Direita e na Esquerda”, e é verdade, porque ele não é nem da Direita e nem da Esquerda, Ele é de onde lhe der abertura para trabalhar. Zé Pelintra trabalha junto com Marinheiro, Baiano, Preto Velho, Caboclo, Exus, etc.

Na Umbanda, linhas da Esquerda são as linhas de Exu, Pomba-gira e Exu Mirim, linhas das Direita: todas as outras. Logo, Zé pelintra trabalha tanto na Esquerda como na Direita, é um grande quimbandeiro. Tentar enquadrar Zé Pelintra somente na Esquerda ou Direita é coisa vã, Zé Pelintra vem onde lhe derem abertura. Na espiritualidade, as coisas não são tão rígidas assim, e não adianta tentar engessar o trabalho espiritual de Zé Pelintra, Ele e maior que os rótulos que usamos.

 Até porque, se pensarmos bem, o Caboclo é de Direita, mas temos o Caboclo Quimbandeiro. Temos o Preto Velho que é de direita, mas temos também o Preto Velho Quimbandeiro. O Baiano é de Direita, mas também temos o Baiano Cangaceiro. O Marinheiro é da Direita, mas também temos o Marinheiro Corsário. Os Ciganos são de Direita, mas também temos os Guardiões dos Ciganos e os Ciganos de Esquerda ou Exus Cigano e Pomba-Gira Cigana. Percebeu? Não adianta querer engessar a espiritualidade, rotular, classificar: a espiritualidade é maior que nossos conceitos e conhecimentos rasos.

Seu Zé Pelintra trabalha na Direita e na Esquerda, corta demanda, desfaz magia, retira obsessor, etc.  Seu Zé Pelintra é aclamado, é amado, é louvado, é muito conhecido na Umbanda, Sarava, Seu Zé Pelintra!
 
Cuidado ao Julgar um Malandro, Seu Mané!

Sempre vejo um desavisado perguntando: “o que eu tenho a aprender com um espírito que foi mulherengo, boêmio, sambista, que viveu da sorte do jogo a vida inteira? ”. Em geral essa pergunta precede uma manifestação de hipocrisia, pois quem a faz não se dá conta que está se baseando em premissas muito rasas, que não lhe subsidiam para questionar a encarnação de um espírito que hoje trabalha como entidade de Umbanda, tais como os nossos Malandros.

Em primeiro lugar, para julgar um espírito em função de sua encarnação passada seria necessário que quem julga conhecesse, da mesma forma, as suas próprias encarnações passadas, pois quem não garante que aquele que julga não viveu várias e várias encarnações muito, muito piores do que aquele espírito que agora manifesta como um Malando? Então, menos entusiasmo e puritanismo quando quiser dá uma de Mané e sair julgando um espírito que hoje trabalha na Umbanda, reveja seus conceitos primeiramente.
Antes de sair dizendo que Pomba-Gira é prostituta, que Exu é um demônio, que os Malandros foram criminosos e marginais, sem de fato saber algo a esse respeito, se estes espíritos que vem nestas linhas foram ou não qualquer coisa parecida como a que você diz que foram, saiba que você mesmo pode ter sido algo desse tipo e vivido uma encarnação vergonhosa noutros tempos, então, menos moralismo hipócrita e puritanismo barato e mais humildade antes de fazer seus julgamentos e avaliações.

Em segundo lugar, todos nós temos muito o que aprender com um Exu, com Uma Pomba – Gira, ou com um Malandro, pois esses espíritos viveram, cometeram seus erros, e aprenderam com as suas quedas e hoje podem nos dar um bom conselho, uma boa orientação, e nos dizer que é melhor ir por aqui, e não por ali; que é melhor não fazermos isso, e fazermos aquilo, etc. Ora, aquele que julga um espírito em função de uma encarnação passada (encarnação essa que não sabe como foi, pois as informações são baseadas em preconceitos, discriminação e hipocrisia, sem conhecimento teológico algum) tem, muitas das vezes, um conselheiro encarnado bem pior. Vivem atrás de conselhos do amigo, do vizinho, do familiar, de alguém que, pelo exemplo atual de sua encarnação, não tem a mínima condição de dar qualquer orientação, todavia, achasse no direito de querer julgar um espírito conselheiro, que hoje pertence a uma Linha de Trabalho de Umbanda. Está sobrando hipocrisia, não?

Independente se uma Pomba-Gira, um Exu ou um Malandro acertaram ou erraram em suas encarnações passadas (e isso não nos interessa), pelo menos eles viveram, passaram pelas suas experiências, tiraram algo de proveitoso disso, da liberdade que tiveram; é melhor que do viver uma vida enclausurada, rodeada de moralismos e puritanismos de má qualidade, e partir dessa encarnação sem aprender nada, por viver mais preocupado com as aparências e as formas do que com a essência. Antes de se preocupar com um espírito que hoje trabalha em uma Linha de umbanda, preocupe-se com você mesmo, em ser alguém que vai sair dessa encarnação melhor do que quando chegou. As entidades de Umbanda não necessitam comprovar que foram santos para adentrarem nas Linhas de Trabalho e ajudar ao próximo, antes, necessitam ter condições de praticar a caridade (pois isso é Umbanda), e todos têm, ao contrário dos inúmeros Manés que acham que conhecem alguma coisa de Umbanda e ficam expondo suas opiniões hipócritas mundo afora.

Quer falar de Pomba – Gira, de Exu e dos Malandros? Vá estudar primeiro e volte depois, sem hipocrisia, preconceito e sem discriminar um espírito que nunca conheceu, se é que você consegue fazer isso, seu Mané!
 
Terreiros de Umbanda com Regência de Um Malandro

Geralmente os terreiros que tem como guia chefe da Casa um Malandro, tais como Seu Zé Pelintra, desenvolvem um trabalho social muito forte, pois lidar com o aspecto social é uma das grandes características dessa Linha, que está muito ligada ao resgate da dignidade humana; dignidade está esquecida pelos políticos, pelo poder público e pela sociedade.
Os Malandros, com seu jogo de cintura, nos ensinam a lidar com a vida complicada, difícil, e muitas vezes sem muitas expectativas de melhoras. Os Malandros trazem a esperança onde faltam muitas outras coisas.

O Malandro Miguel Camisa Preta



Não poderia deixar de agradecer a falange do Malandro Miguel Camisa Preta, que trabalha comigo já a algum tempo. Quando chegou, pediu para se assentar na Esquerda, onde é uma entidade atuante mediunicamente. Com seus dados, com suas cartas, com seus mistérios e boa malandragem, tem nos ajudado muito na espiritualidade, nos fazendo compreender que sempre a alguém que necessita mais que nós mesmos.

Sou muito grato pelo amparo, pela sustentação e condução espiritual. Não à toa, antes de todas as giras saudamos o Sr. Miguel Camisa Preta, para que, ao lado das demais entidades de esquerda, com as sua faca afiada, corte todo mal que possa vibrar contra nós. Não vou perder a oportunidade de homenageá-lo postando um dos pontos cantados que nos trouxe, que sempre cantamos em seu louvor quando de sua chegada para trabalhar. Salve a Malandragem! Salve o Sr. Miguel Camisa Preta!
 
Malandro vem descendo o morro
Ele vem pra ajudar
Malandro Vem descendo o morro
Vem na fé de Oxalá!
Malandro vem descendo o morro
Ele vem pra ajudar
Malandro Vem descendo o morro
Pros seus filhos Saravá!
 
 Um Saravá Fraterno a Todos!


Duvidas e Perguntas:
E-mail: jaderoliveira.j@hotmail.com
 

 
Oca do Cacique Beira Mar Templo Escola de Umbanda
Enviado por Oca do Cacique Beira Mar Templo Escola de Umbanda em 09/02/2016
Alterado em 10/02/2016

Música: O samba do Zé - Salve a Malandragem (Cesar Marçal) - Desconhecido

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"Quando a vida está ruim, o Rosário é um simbolo que nos indica como buscar ajuda" (Pai Antonio de Angola).





"Quem vive com Ogum, Ogum não abandona nem após morte". (Marinheiro Martim Pescador).






"Não são os encarnados, filhos de santo, falhos, pequenos, errantes por natureza que dirão se uma entidade é ou não de luz, mas a própria entidade com suas obras de caridade." (Baiano Zé do Coco)