Oca do Cacique Beira-Mar -Templo Escola de Umbanda
"A missão não envaidece, responsabiliza" (Cacique Beira-Mar)
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POMBA GIRA NA UMBANDA


A Orixá Pomba Gira

Talvez este tópico, “A Orixá Pomba Gira,” cause estranheza nos estudiosos dos orixás nagôs-iorubás, oriundos da África, onde hoje é a atual Nigéria e parte do Republica do Benin. Ocorre que, como sabemos, não existe uma Orixá Pomba Gira na África, o que leva o estudioso logo a questionar: de onde vem essa Orixá Pomba Gira?

A Orixá Pomba Gira aparece, pela primeira vez, na psicografia do sacerdote Rubens Saraceni, quando um dos seus guias lhe esclareceu que as entidades Pomba Giras são sustentadas por uma Orixá Desconhecida, sem nome. Assim, diante de tal informação, passou-se a denominar essa divindade, esse trono divino ou orixá como Orixá Pomba Gira. Essa divindade trabalha (do lado interno da criação e do lado interno de todas as coisas e seres) o mistério do estímulo e do desejo nas sete vibrações divinas ou sete linhas de Umbanda:  a fé, o amor, o conhecimento, a justiça, a lei, a evolução e a geração (se não entende essa parte, leio o texto “As Sete Linhas de Umbanda”).

Ao contrário da Entidade Exu, que recebe o nome de um orixá, o orixá Exu, a entidade Pomba Gira doa o seu nome a uma divindade, a orixá Pomba Gira. A orixá Pomba Gira possui a sua hierarquia da seguinte maneira: para cada linha de Umbanda (são sete linhas, lembra? Fé, amor, conhecimento, justiça, lei, evolução e geração – caso não entenda esta parte, lei o texto “As Sete Linhas de Umbanda”) há uma Pomba Gira Guardiã, sendo assim: há uma Pomba Gira Guardiã da fé, do amor, do conhecimento, da justiça, da lei, da evolução e da geração.

Em cada linha de Umbanda cultuamos pelo menos dois orixás (embora existam muitos outros), um masculino e um feminino, da seguinte maneira: na fé, Oxalá e Logunan; no amor: Oxum e Oxumaré; no conhecimento: Oxóssi e Obá; na justiça: Xangô e Egunitá; na lei: Ogum e Iansã; na evolução: Obaluaiê e Nanã; na geração: Iemanjá e Omolu), ou seja, há um total de 14 (catorze) orixás nas sete linha de Umbanda, e para cada orixá há uma Pomba Gira Guardiã. Isso mesmo, além das sete Pomba Giras Guardiãs acima citadas acima e subordinadas a Orixá Pomba Gira, existem outras 14 (catorze) Pomba Giras Guardiãs, da seguinte maneira: Pomba Gira Guardiã de Oxalá, de Logunan, de Oxum, de Oxumaré, de Oxóssi, de Obá, de Xangô, de Egunitá, de Ogum, de Iansã, de Obaluaiê, de Nanã, de Iemanjá e de Omolu, compreendeu?

Abaixo destas Pomba Giras Guardiãs acima citadas estão as falanges de Pomba Giras que trabalham na força de cada orixá descrito acima, desde Pomba Giras que trabalham na força de Oxalá a Pomba Giras que trabalham na força de Omolu. Essas são as que conhecemos dentro dos terreiros de Umbanda, tais como Maria Padilha, Maria Quitéria, Maria Farrapo, Sete Saias, Rosa Negra, etc. Tais entidades são espíritos humanos que trabalham nas trevas em prol da luz, prestando a Caridade, afinal, Umbanda é isso: “a prática da caridade”, lembra?

Precisamos guardar, também, que a Orixá Pomba Gira, que essa divindade ou trono de Deus, faz par com o Orixá Exu, ou seja, se polariza com Exu, a Divindade, certo? Exu é Pai e Pomba Gira é nossa grande Mãe Orixá na Esquerda.

Em Ioruba, Uma Lenda Controversa. O Mistério da Orixá Pomba Gira?

Na região nagô-ioruba há uma lenda repleta de controvérsias. Essa lenda fala de uma divindade chamada Yá Mapô, que seria a mãe da vagina. Dizem alguns que Ya Mapô seria uma das qualidades de Iyami Oxorongá. Iyami são as mães feiticeiras, são divindades feiticeiras, muito temidas na África. As Iyami são, para alguns, uma classe a parte de divindade que assustam, que põe medo ou terror em algumas pessoas, mas outros consideram Iyami como as mães Orixás dentro de uma sociedade chamado Sociedade Gelede.

A lenda diz que no princípio dos tempos quando foi criado o homem, foi criado também a mulher, e que ninguém sabia onde que iria colocar a vagina na mulher. Diz o conto que Yá Mapo encontrou o local correto para colocar a vagina na mulher com o auxílio de Exu, isso após várias tentativas frustradas de colocar a vagina na mulher em outros lugares.

A discussão e discórdia ocorre porque alguns afirmam que essa lenda foi criada, foi feita, e que, de fato, nunca existiu naquela região e cultura. Afirmam ainda que Yá Mapo não é cultuada em lugar nenhum, embora haja esse comentário de uma suposta qualidade de Iyami Oxorongá (Iyami Osoronga é um dos Orixás mais antigos na região nagô-iorubá, e possui o poder de fecundar, fertilizar ou esterilizar conforme seu desejo).

Longe dessa discussão, fica uma conclusão lógica: se existisse o culto a Yá Mapo estaria, esse ser, muito próxima de Pomba Gira, isso porque esse mistério pertence a Pomba Gira, o mistério da sexualidade feminina.

Assim como o órgão sexual masculino ele está ligado a Exu, o órgão sexual feminino está ligado a Pomba Gira.

O Oitavo Chacra: o Chacra de Exu e Pomba Gira.

Todos nós sabemos que existem, na visão ocidental, sete chacras: o chacra coronário, frontal, laríngeo, cardíaco, esplênico, umbilical e básico. Na cultura Oriental há uma pequena alteração: chacra coronário, frontal, laríngeo e cardíaco, incluem o chacra solar, chacra sexual (no lugar do umbilical) e chacra básico. O chacra esplênico é o mesmo solar.

Se considerarmos que são sete chacras, podemos entender que o chacra umbilical pode ou não corresponder ao chacra sexual. Na visão ocidental é chacra umbilical, mas na oriental se trata do chacra sexual. Todavia, é possível fazer uma leitura de oito chacras, ou seja, tratando o chacra umbilical e sexual como chacras diferentes. Em se fazendo essa leitura, teremos então oito chacras, os tradicionais sete chacras mais um, da seguinte maneira: chacra coronário, frontal, laríngeo, cardíaco, esplênico ou solar, umbilical, e aqui entraria o chacra a mais: chacra sexual, e o chacra básico.

Desta forma, se fizermos essa leitura, o oitavo chacra, o chacra sexual, seria de Exu e Pomba Gira. Como sabemos, na Teologia de Umbanda estudamos que cada um dos sete chacras está ligado a uma das sete vibrações divinas, da seguinte maneira: chacra coronário - fé, frontal - conhecimento, laríngeo - lei, cardíaco – amor, esplênico/ solar – evolução; umbilical – justiça, então, sexual seria Exu e Pomba Gira que é vigor e vitalidade e estimulo e desejo.

O Orixá Exu, na África, é assentado (dentre outras formas de se assentar) por meio de um falo. Exu é simbolizado pelo falo porque Exu representa a virilidade, o vigor; o Orixá Exu é senhor desse mistério. E Pomba Gira e seu mistério na criação traz o magnetismo do desejo e do estímulo, como veremos abaixo. Por isso, um complementa o outro, e dizemos que, enquanto divindades e entidades, se polarizam.

Pomba Gira e o Fator do Estimulo e Desejo. O Tridente Redondo e o Tridente Quadrado.

A Orixá Pomba Gira trabalha o fator do desejo e estimulo (dentre vários outros) nas sete linhas de Umbanda, ora estimulando ou desestimulando a fé, o amor, o conhecimento, a justiça, a lei, a evolução e a geração, no nosso lado interno. Pomba Gira, tal qual exu, também possui uma ação tripolar, de onde vemos o tridente redondo (redondo porque é feminino) ser usado nas firmezas e assentamentos.

O tridente exemplifica a ação estimuladora, desistimuladora e neutralizadora. Desta forma, a respeito das sete vibrações divinas colocadas acima, Pomba Gira pode estimular, desestimular ou mesmo neutralizar uma determinada vibração divina, a depender da necessidade do ser. Essa ação ocorre no lado interno dos seres, que tem uma ligação com o lado interno da criação.

O tridente redondo é considerado feminino e o tridente quadrado masculino. Logo, a associação é de que o tridente redondo é de Pomba Gira e o Quadrado de Exu. Todavia, há outro sentido além deste que é um tanto simplista: o tridente redondo é atemporal, ou seja, quando se quer trabalhar questões de passo, presente e futuro, enquanto que o quadrado é temporal, ou seja, por meio dele só se trabalha questões do presente.

Portanto, uma Pomba Gira também pode utilizar e riscar um tridente quadrado e um Exu um tridente Redondo, pois há um fundamento sólido por trás disso. 

Encruzilhada Em "T" e a Encruzilhada em "X. Encruzilhada Macho e Femea

A encruzilhada em "X" é chamada de encruzilhada macho e a encruzilhada em "T' é chamada de encruzilhada fêmea. Assim, quando se quer oferendar Exu, utilizamos a encruzilhada macho, e a Pomba Gira, utilizamos a encruzilhada fêmea, em "T".

A Encruzilhada em "T" significa o acesso de Pomba Gira a todas as realidades, dimensões e planos, no sentido de que é um caminho que já está posto (uma estrada) encontrada por uma saída que leva a outros caminhos. Ou seja, a partir de uma realidade Pomba Gira tem acesso a todas as demais.

A Encruzilhada em "X" traz o significado de que Exu cruza todos os caminhos, não tendo nada lugar aonde Exu não possa chegar, certo?

A Origem do Nome Pomba Gira?
 
Pomba-gira provavelmente é uma corruptela do termo Bombojiro(a) ou Pambu Jila, termos que vêm do Kimbundo (língua falada pelos Angolanos) , na cultura Bantu, num local hoje denominado de Angola, na África. Com o passar do tempo estes nomes viraram “Pomba Gira”, em uma contração linguística. Pambu Jila é uma espécie de Exu na cultura Bantu. Perceba que o nome Pomba Gira não existe na cultura nagô-Ioruba, certo? Esse nome vem de uma (repito) contração ou corruptela de palavras de outra cultura Africana, a Bantu.

O nome Pomba Gira aparece na literatura pela primeira vez em 1904, no livro “As Religiões do Rio”, de João do Rio, ou seja, antes de a Umbanda existir (a Umbanda só foi fundada em 1908). Embora o nome e a entidade Pomba Gira já existisse antes da fundação da Umbanda, o arquétipo de Pomba Gira é originalmente da Umbanda, pois aqui, na Umbanda, nas giras dos nossos terreiros, Pomba Gira é um espírito humano (a entidade), que sofreu sua queda, se redimiu e hoje compõe uma falange de espíritos que praticam a caridade ao lado de Exu, nas faixas vibratórias negativas, no embaixo.

Como veremos abaixo, dentro da Umbanda, Pomba Gira vai aparecer nos anos 50 e 60, juntamente com o movimento feminista da época.

Qual a Representação da Entidade Pomba Gira?

Pomba Gira representa a mulher forte, segura, feliz, independente, determinada, que não tem vergonha do seu corpo, da sua sexualidade, que não tem falsos pudores, que gosta de sexo, de prazer, que ama viver uma vida alegre e liberta de limites hipócritas, fundados, boa parte deles, no cinismo de sociedade patriarcal, machista e segregadora.

Pomba gira representa a liberdade feminina. Liberdade das convenções sociais que tentam manter a mulher sob jugo, como sendo apenas para “cama e mesa”. Como já disseram as Pomba Giras: “cama, só para meu deleite, e mesa, só se tiver champanhe, e dos bons! ”.

Pomba Gira apareceu nos terreiros de Umbanda no final dos anos 50 (cinquenta) e início dos anos 60 (sessenta), juntamente com o movimento feminista que sacudiu o mundo e também o Brasil. Vieram para combater as desigualdades de gênero, o domínio machista; vieram trazer orgulho, esperança e força para as inúmeras mulheres que sempre foram vistas como coadjuvantes na vida social, e assim tratadas pelos seus companheiros. Pomba Gira é, acima de tudo, liberdade, altivez e liderança que faz a mulher entender que não deve aceitar nada menos do que aquilo que ela mesma desejar para si, e não aquilo que foi imposto pela sociedade ou pelos homens que lhes são companheiros.

Pomba Gira vem para dizer que a mulher é dona do seu próprio destino, da sua própria vida, do seu próprio caminho, e que não necessita que ninguém venha lhe dizer qual é o seu papel, pois este papel é aquele que ela escolher que é, compreende? Sarava a todas Pomba Giras!

Pomba Gira é Mulher da Vida?

Em primeiro lugar, temos que convir que da vida somos todos nós encarnados, ou não estamos na vida, vivendo-a? Entretanto, o sentido da pergunta é um sentido pejorativo, que dá a entender que Pomba Gira vive num contexto de prostituição, de lascívia, de profanação do corpo. Faz-se necessário dizer que a Pomba Gira que atua dentro do terreiro de Umbanda é um espírito que age em seu médium por meio da incorporação, ou seja, a própria Pomba Gira, em si mesmo, é, hoje, um ser incorpóreo. Logo, afirmar que Pomba Gira se prostitui ou vende seu corpo é uma manifestação de esquecimento de um único detalhe: Pomba Gira é espírito e não possui mais corpo, ou seja, é um ser incorpóreo, assim, não tem mais o que vender atualmente, concorda?

Em segundo lugar, quero conter os desinformados que apregoam que Pomba Gira se prostituia noutra vida, até porque, quem são estes que isto afirmam? São conhecedores intratempos de encarnações passadas de outros espíritos? Como se pode afirmar que a encarnação de um espírito foi dessa ou daquela maneira quando sequer conhecemos, ou temos acesso, as nossas próprias encarnações passadas? Nada sabemos a esse respeito, logo, quem afirma tal coisa não passa de um preconceituoso desinformado que, não tendo o que fazer, sai propagando conjecturas pelos quatro cantos.
Em terceiro lugar, temos de indagar que tipo de encarnação passada nós mesmos vivemos. Será que noutra encarnação não fomos foi alguém bem pior do que se denomina, nessa visão preconceituosa e discriminadora, de prostituta? Cuidado, talvez suas encarnações passadas não sejam assim tão dignas de aplausos.

Em quarto lugar, temos que enfatizar que, independente do tipo de encarnações passadas que uma Pomba Gira tenha vivido e dos erros que possa ter cometido, se hoje é uma entidade trabalhadora da Luz , significa que ela se redimiu de sua queda e tem evolução espiritual suficiente para prestar a caridade e nos auxiliar no nosso caminho, tanto quanto quaisquer outras entidades de Umbanda.

Em quinto lugar, será que não é hipocrisia destes “julgadores de espíritos” o julgamento que proferem contra entidades de luz, pois, ao julgarem entidades espirituais deixam de serem julgadores de si mesmo? É bem provável que sim. Quem julga os outros, em geral, está passível dos mesmos julgamentos, ou até mesmo pior, pois vivem vidas desprovidas de boas palavras, condutas e comportamentos, todavia, acreditam, mesmo sem ser exemplo de nada, que podem proferir seus juízos contra espíritos alheios. Quem deseja julgar, que o faça: julgue a si mesmo. Como disse Cristo: “antes de querer tirar o cisco do olho do teu irmão, retira a trave do teu próprio olho”.

Por fim, o que é, de fato, prostituição? Será que é teus pensamentos e palavras torpes não são uma maneira de se prostituir também? Será que sua conduta e comportamento irreflexivo, ou motivado por interesses mesquinhos e egoístas, também não são formas de se prostituir? E os seus valores, não são prostituídos também? Pense bem. Talvez a tua vida esteja imersa em grosseira prostituição, mesmo acreditando estar em límpida santidade. Aqueles que evocam para si santidade, em geral, tem muito “pecado” a esconder.

Pomba Gira, a Companheira de Exu. Preconceito Emprestado.

Não dá para falar de Pomba Gira sem falar de Exu, ate porque, Pomba Gira recebe de graça o preconceito que há em relação a Exu, que é, como todos nós sabemos, uma entidade demonizada. Em primeiro lugar, Exu é um orixá, que assim como Oxalá, Xangô, Oxóssi, Ogum, etc. veio da região Nagô-Ioruba, da África, atual Nigéria, quando os negros daquela região foram trazidos como escravos para o nosso país. O nome Exu, em Iorubá, significa “esfera”.

Como sabemos, O orixá Exu foi associado com o diabo, satanás, belzebu, etc. judaico-cristão, e isso se deu por algumas razões. Primeiro que Exu, o orixá, é uma divindade alegre, brincalhona, fálica, que gosta de sorrir, de dançar, de se divertir. Ora, quando o europeu tomou conhecimento disso, e, ao se deparar com a imagem de exu, sem roupa (a nudez não é fruto do pecado na cultura nagô-iorubá), logo concluriam: “esse ser só pode ser o diabo descrito na Bíblia”. Acontece que na cultura nagô-iorubá não existe diabo, satanás, belzebu, desta forma, não poderia Exu ser esse suposto ser, eis que não há esse tal opositor de Deus, figura criada pelas escrituras judaicas-cristãs. Com o passar do tempo, o nome Exu passou a significar Diabo, entretanto, a etimologia da palavra Exu significa “esfera”, e não diabo. Mas, pela associação pejorativa de Exu com o suposto Diabo, a maioria acredita que Exu traga esse significado. Experimente sair na rua perguntando: “o que significa Exu?”. Verá que as respostas serão: diabo, satanás, belzebu, o tinhoso, e por ai vai. Exu foi demonizado pela cultura cristã, e isso é lamentável.

E Pomba Gira? Ora, quando dizemos que Pomba Gira é companheira de Exu,  a associação não é outra, senão que Pomba Gira é “a mulher do diabo”, “a parceira de Satanás”, ou seja, Pomba Gira recebeu o preconceito emprestado de Exu, passando a sofrer ainda mais preconceito por conta disso.

 O Preconceito Cantado

O preconceito que envolve Pomba Gira é expresso tanto no lado externo dos templos e terreiros, como vemos acima, quanto no lado interno, por meio dos pontos cantados, que é como chamamos nossas músicas.

É lamentável ouvir pontos cantados que afirmam que Pomba Gira é “rainha do cabaré”, “mulher de sete maridos”, “rainha do inferno”, “mulher de satanás”, dentre outras expressões que disseminam o preconceito do lado interno dos nossos templos e terreiros. Veja bem, o preconceito expressado por meio daqueles que não conhecem a religião de Umbanda e Pomba Gira é algo compreensível, ainda que não aceitável. Todavia, a expressão do preconceito por parte daqueles que se dizem umbandistas é total absurdo, pois, como nós, religiosos de Umbanda, podemos permitir que dentro de nossos terreiros seja cantado o preconceito e a discriminação em alto e bom tom. Note que não estou, em si, criticando o nome das entidades, mas sim o preconceito e a discriminação dirigidos a elas.

Claro, eu já vi em determinados “terreiros de Umbanda” algumas entidades “incorporadas” cantarem pontos que expressam esse tipo de preconceito e discriminação, e isso ocorre por dois motivos. Em primeiro lugar, pode ser que não haja entidade de luz alguma incorporada, e sim um espirito qualquer que, tomando forma de uma Pomba Gira, se passando por uma, canta esse tipo de “ponto” desconstrutivos. Em segundo lugar, pode ocorrer porque o próprio médium acredita que Pomba Gira é realmente isso, logo, isso aparece na incorporação em forma de animismo, ou quem sabe mistificação.
A respeito do ponto que diz que Pomba Gira é “mulher de sete maridos”, eu compreendo que, por vezes, isso é utilizado para afirmar que Pomba Gira trabalha nas Sete Linhas de Umbanda, linhas estas que possuem sete orixás masculinos. Entretanto, não acredito que tal ponto seja saudável para se cantar numa gira aberta, pois o leigo que o escuta não sabe discernir isso, não sabe entender que há uma questão teológica por trás disso, e por isso não faz distinção alguma. E por outro lado, quando se usa a expressão “marido”, a associação que o leigo faz é que a Pomba Gira se relaciona, inclusive sexualmente, com esses maridos, mesmo que esse não seja o significado. Assim, mesmo compreendendo o que os pontos que cantam essa frase (“mulher de sete maridos”) querem dizer, não recomendo o uso dos mesmos.

A minha prece é que retiremos de dentro dos nossos terreiros e templos esse tipo de “ponto cantado”  desconstrutivo que só propaga e dissemina o preconceito e a discriminação a entidades trabalhadoras de Umbanda, tais como Pomba Gira.

Da Sexualidade Mal Resolvida a Critica Hipócrita a Pomba Gira

Como bem sabemos, Pomba Gira também trabalha a energia da sexualidade em nós, e, neste ponto, temos uma outra distorção, pois, aqueles que recebem essa informação, que em geral são pessoas que possuem sua sexualidade reprimida, mal trabalhada e mal resolvida, acabam entendendo que Pomba Gira é uma obsessora sexual, ou ainda, que Pomba Gira, por trabalhar a energia da sexualidade, modifica a nossa própria sexualidade. Pomba Gira não é obsessora sexual e tampouco modifica a nossa sexualidade. O médium homem pode ficar tranquilo: Pomba Gira não modifica a sexualidade e o gosto pela sua opção sexual somente por trabalhar incorporada.

Pomba Gira, muito ao contrário disso, nos ajuda a equilibrar e curar em nós essa energia sexual, a fim de que nos tornemos seres que entendem a si mesmo, nossos desejos, estímulos, vontades e opções, vencendo qualquer tipo de repressão e domínio a que estejamos submetidos neste campo, abandonando aquilo nos seja nocivo.

Pomba Gira não está na Umbanda a serviço da lascívia, do desejo torpe, da prostituição, nada disso. Pomba Gira não “traz marido em três dias”, não faz “amarração”, não pratica o mal, e tampouco aprisiona quem quer que seja numa paixão desequilibra e fútil, mas se em determinado local se faz isso em nome de Pomba Gira, aí já é outra história. Sei que há muitos “pais e mães de poste, de muro, de paredes” que aventam aos quatro cantos que trabalham com a Pomba Gira Maria Padilha, Maria Mulambo, Maria Quitéria, Sete Saias, etc. fazendo esse tipo de coisa, e o que posso dizer é que tais trabalhos não têm relação alguma com a Umbanda, e tampouco com Pomba Gira. Se há um espirito fazendo isso, com certeza não é uma Pomba Gira de Umbanda, mas algum marginal do astral fazendo esse trabalho. E quanto a estes pseudo-sacerdotes, não passam de aproveitadores da fé e da necessidade alheia.

Pomba Gira e o Mistério dos Abismos e dos Interiores

Como sabemos, Pomba Gira se polariza com Exu. Exu guarda o lado externo da criação, e por isso nós o firmamos do lado de fora de nossa casas e terreiros. Já Pomba Gira, guarda o lado interno da criação. Aprendemos em Teologia de Umbanda que a criação possui um lado externo e um lado interno, e que todas as coisas e seres (inclusive nós) possuem um lado interno e um lado externo. É a este respeito que dizemos que Exu é guardião do lado externo da criação e Pomba Gira é guardiã do lado interno, e opera o mistério que chamamos de mistério dos interiores, inclusive, do nosso interior que, se não sabe, tem uma ligação com o interior da própria criação. O mistério dos interiores é um mistério que pertence a Pomba Gira. Por mistério, entenda um poder capaz de executar determinados fins, logo, esse mistério, trabalhado por Pomba Gira, tem a capacidade de nos equilibrar, curar e reestabelecer a ligação saudável ente o nosso interior e o interior da criação, o interior divino.

Exu guarda por fora e Pomba gira guarda por dentro o mistério das sete linhas de Umbanda, das sete vibrações divinas, das sete essências, dos sete sentidos da criação. Enquanto Exu opera estes mistérios por fora, Pomba Gira opera por dentro, atuando em nós a partir do nosso interior. Reitero, Exu e Pomba Gira são guardiões da criação, um guardando o lado externo, a outra guardando o lado interno.

Há três tipos de interiores que Pomba Gira trabalha dentro de nós: um interior positivo, que é nossa ligação com Deus; um interior neutro, que é nossa ligação conosco mesmo; e um interior negativo, que é um interior abismal, ou seja, é o interior que faz abrir dentro de nós um abismo pelo qual podemos sofrer uma queda. O misterio de Pomba Gira, dos interiores, trabalha estes interiores dentro de nós: o posito, o neutro, e o negativo.

Para uma Pomba Gira não importa o que o ser humano aparenta, o que mostra, o que exterioriza, ela nos vê por dentro, no nosso íntimo, vê o nosso interior da maneira que é, e não da maneira que mostramos que é. Para Exu importa a guarda e a proteção, a segurança, e para Pomba Gira interessa o que está dentro de nós, a nossa realidade interna. E como está o nosso interior, já pensou nisso? Pomba Gira pode, e muito, ajudar no nosso equilíbrio interno nas sete linhas de Umbanda, por meio do mistério dos catorze orixás, basta que tenhamos fé e a ela recorramos.

As Pomba Giras Que Nos Acompanham

Todos nós temos pelos menos três Pomba Giras.  A primeira é uma Pomba Gira Guardiã, ligada ao nosso orixá ancestral. Essa Pomba Gira praticamente não incorpora, ou incorpora muito raramente. A segunda é a nossa Pomba Gira de trabalho, ligada ao nosso orixá junto. Essa Pomba Gira é que incorpora com maior frequência, aquele que presta os atendimentos gira após gira. A terceira é uma Pomba Gira Natural, ligada ao nosso orixá de frente. Essa última não incorpora, é uma Pomba Gira que está numa dimensão regida pela Orixá Pomba Gira. Caso não saiba, neste plano há 77 (setenta e sete) dimensões ou graus, e a dimensão da realidade humana é a 22 (vigésima segunda), havendo ainda outras dimensões. Estas dimensões são dominadas pelos orixás. Há dimensões que são regidas por Ogum, outras por Xangô, outra por Oxóssi, etc., e é da dimensão do nosso orixá de frente que vem a nossa Pomba Gira Natural, compreendeu?

Descobrir quais são as Pomba Giras que nos acompanham exige desenvolvimento mediúnico e preparação, pois saber sem propósito não tem utilidade alguma, afinal, o nome das nossas entidades não pode ser um mero dado estatístico ou apenas informativo, mas deve nos inspirar a conhece-las e a cultuá-las. Temos de ter responsabilidade para com as nossas entidades.

Quero dizer, antes que esqueça, que a "formula" acima não é infalivel, ou seja, podemos sim trabalhar com Pombas Giras que não tenham, necessariamente, ligação com os nossos orixás, certo?

A Saudação e os Cumprimentos a Pomba Gira

Uma saudação básica de Pomba Gira é: “Laroyê Pomba Gira, Pomba Gira Mojubá”. Entretanto, qual o significado desta saudação?

A palavra “laroyê” é uma palavra que vem de Ioruba e tem muitos significados, mas, em síntese, quer dizer “olha por mim”; “levante-se”, “vamos trabalhar”, “acorda”, dentre outros. Assim, quando se diz: “laroyê, Pomba Gira!”, está-se falando: acorde; levante; vamos trabalhar; olha por mim; me proteja; me guarde.

A palavra “Mojubá” é um cumprimento que se costuma fazer para Exu, e que também se faz a Pomba Gira, e que se pode fazer a qualquer pessoa. É um reconhecimento da grandeza do outro, da sua importância; é uma maneira de reverenciar aquele que está diante de nós. Portanto, ao dizer “Pomba Gira é Mojubá”, estamos reconhecendo sua grandeza, importância e a reverenciando.

E a saudação “Saravá, Pomba Gira!”, o que significa?

A palavra sarava não tem uma raiz etimológica, mas traz o significado de “salve”, ou seja, também é uma forma de cumprimentar, de saudar a entidade Pomba Gira.

E o Paó, o que é? A palavra Paó significa “encontro”, e é o ato de bater palmas. Logo, é um ato ritualístico gestual que utilizamos quando saudamos Pomba Gira. Batemos Paó e saudamos: “Laroye Pomba Gira! Pomba gira é Mojubá!” Na prática, o paó é uma sequência de três palmas vezes 3, ou seja, seriam nove palmas divididos em 3 sequências de três, certo?

Também é comum cruzar as mãos para baixo, em direção ao solo para pedir a Pomba Gira. Isso é frequente quando estamos diante da esquerda, da tronqueira e do assentamento de esquerda. Quando estamos diante do altar, as palmas de nossas mãos ficam para cima, e diante da tronqueira e do assentamento de esquerda, as nossas mãos são cruzadas/entrelaçadas para baixo.

Pode-se ainda fechar as mãos e bater uma na outra, como saudação a pomba gira. Tudo isso envolve a saudação a Pomba Gira, desde o “Laroye”, o “Mojubá, o “Sarava”, o “Paó”, as “Mãos Entrelaçadas para baixo” e o ato de “Bater as mãos fechadas uma na outra”, dentre outros possíveis cumprimentos e saudação.

Por fim, o fato de termos saudações a Pomba Gira significa que não basta que nos coloquemos diante dela e a chamemos e lhe solicitemos o que bem entendermos, de qualquer maneira, de qualquer forma, não, as coisas não funcionam assim. As saudações deixam claro que deve haver um respeito da nossa parte para com a Pomba Gira. Pedimos-lhe ajuda, mas oferecemos o nosso respeito e a nossa reverência. Perceba que há uma troca de energias aqui, e que não se pode fazer as coisas sem temor, respeito e reverência. Agora, se não tivermos nada dentro de nós, amor, fé e devoção, provavelmente faremos tudo de qualquer forma mesmo, e ficaremos a aguardar que, da nossa falta de respeito, temor e reverência obtenhamos algum fruto bom, e ficaremos aguardando, apenas isso, aguardando.

Respeite e reverencie a Pomba Gira que lhe acompanha, e trate-a com a mais profunda devoção, pois ela poderia estar trabalhando com qualquer outro, no entanto, decidiu trabalhar ao seu lado por alguma razão. Assim, retribua a companhia dela com respeito, temor, reverência e muita, muita devoção.

No judaísmo, quando se quer chamar um anjo, como o Anjo Gabriel, por exemplo, se deve cantar o seu nome, em forma de mantra. No Catolicismo, com o mesmo objetivo, existem os cantos gregorianos. No hinduísmo, quando se quer chamar um Deus, se canta um mantra especifico, como quando se quer chamar Shiva, por exemplo. E porque, ao chamarmos nossa Pomba Gira, as coisas devem ser feita de qualquer forma? Não devem. Todo o ritual deve estar permeado de respeito, devoção e reverência, não se esqueça disso. Umbanda é uma religião de amor, ofereça o seu amor a Pomba Gira.

Uma Firmeza Básica a Pomba Gira

Uma firmeza básica que qualquer pode fazer para se relacionar com a sua Pomba Gira é oferecer-lhe uma cidra, uma cigarrilha, uma rosa vermelha e uma vela vermelha, de sete dias ou palito. Acenda a sua vela, consagre-a a Pomba Gira, coloque a Cidra em uma quartinha ou mesmo em uma taça, acenda a cigarrilha e coloque a flor onde ficar melhor. Montada a firmeza, faça as saudações acima relatadas, cante seus pontos, faça sua prece e reza, com amor, devoção e reverência. Caso seja uma vela de sete dias firmada, tire um tempo diário para saudar, rezar e cantar seus pontos a Pomba Gira, pois não adiante fazer uma firmeza de sete dias para, após o primeiro, esquecer-se dela.


Gratidão As Pomba Giras que me Acompanham



Não poderia deixar de registrar aqui a minha gratidão as Pomba Giras que me acompanham. Laroyê, Pomba Gira! Pomba Gira é Mojubá!
 
Um Sarava Fraterno a Todos!

Dúvidas e Perguntas:
E-mail:jaderoliveira.j@hotmail.com

 

 
Oca do Cacique Beira Mar Templo Escola de Umbanda
Enviado por Oca do Cacique Beira Mar Templo Escola de Umbanda em 08/03/2016
Alterado em 25/07/2016

Música: Maria Mulambo Das Sete Catacumbas - Desconhecido

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Comentários

"Deus não só faz  Justiça, Deus é a Própria Justiça". (Baiano Zé do Coco)





"A melhor firmeza é a do coração". (Caboclo Beira Mar)





"Quando a vida está ruim, o Rosário é um simbolo que nos indica como buscar ajuda" (Pai Antonio de Angola).





"Quem vive com Ogum, Ogum não abandona nem após morte". (Marinheiro Martim Pescador).






"Não são os encarnados, filhos de santo, falhos, pequenos, errantes por natureza que dirão se uma entidade é ou não de luz, mas a própria entidade com suas obras de caridade." (Baiano Zé do Coco)